quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Não sabia o sabiá

Meus filhos,

Segue um texto que estava desenvolvendo nos últimos dias.


Não sabia o sabiá


A água fria que caía daquela ducha o acordou. Tentava lembrar do que tinha acontecido na semana anterior. Sem sucesso. Quando a água passou de fria a morna, ele soube que protelava o fim do banho. Banho frio, penitência. Por quê está se punindo? O que fez de errado?

Quem dera soubesse. Quem dera lembrasse. Mas o sentimento persiste. A água morna deixa seus dedos enrugados.

Se seca, se olha no espelho. Escova os dentes com o creme dental que promete doze horas de proteção contra doenças bucais. Passa o desodorante que atrai mulheres. Veste a calça jeans centenária, a camiseta nova e cuidadosamente puída. Prepara um sanduíche passando a verdadeira maionese por duas fatias do pão dos sete garotos, recheada do presunto sadio.

Saudável, saudoso, sinuoso, tenta resgatar as memórias que guardam o segredo daquela falsa penúria. A penúria do pobre de espírito. Daquele que água alguma mata a sede. Do contente descontente. O que aconteceu, afinal?

No final, tudo irrelevante. Ele entra em seu carro, dirige irresponsavelmente pelas ruas demasiadamente lentas, como quem sente que o tempo é curto, como quem omite, ou mente a si próprio quanto a própria imprópria mortalidade.

A juventude é infinita aos olhos de quem ainda não envelheceu. E dolorosamente curta aos olhos de quem já passou. Ou passa, passado, passando.

Lembrou. Semana passada, se deu conta de que o tempo, passando, já deixa marcas, fecha portas, e as escolhas, tantas escolhas, agora são poucas, tão poucas que a água fria não serve de punição, mas de consolo. O gelado consolo de manhãs tristes, de dias que seguem, sem rumo, sem destino. Passando, passado.


Abração!

Bryan St. Martin

Um comentário:

Bruno Medeiros disse...

Este Sapo agora se sente um Sabiá!